[Coluna] Nas Entrelinhas – Pertencer a mim, por Ricardo Biazotto

nasentrelinhas13

Pertencer a mim
Ricardo Biazotto

Joguei suas coisas fora, tudo que escrevi por você
Peguei meu rumo embora, para tentar esquecer
Dos dias difíceis e noites que não dormi
Lembranças que fizeram minha alma se ferir.
Eu não pertenço a você – Reação em Cadeia

Na última vez que a vi, queria tocar os seus lábios, sentir o perfume de sua pele e me aquecer no calor de seu corpo, contudo o temor das consequências me impediu de segurar as suas mãos e de secar as suas lágrimas, enquanto a via aos prantos e me perguntava como acalentar o seu coração.

Era capaz de compreender os motivos de lágrimas percorrerem a sua pele alva, porém tinha os meus próprios motivos para ser invadido pela tristeza: mais uma vez não fui capaz de encarar o receio de avançar as barreiras impostas pela amizade. Ou que eu pensava ser uma amizade.

Parecia saber que aquela noite, em que dividimos um saco de pipocas e barras de chocolates, seria a última vez que nos encontraríamos; era como se no fundo soubesse que tempos mais tarde você diria adeus, prometendo ir embora para nunca mais voltar.

Hoje faz um mês que pela segunda vez você disse adeus, se agarrando ao mesmo argumento que a levou embora no passado. E como da última vez, tudo se desmoronou e me obrigou a enfrentar um longo inverno, antes de perceber que dessa vez foi para valer! E me pergunto de que adianta me apegar à esperança se ela se estilhaçou quando mais uma vez suas palavras duras atingiram o meu coração… E de que adianta esperar por alguém que não me quer… E de que adianta…

Queria poder parar o tempo e compreender os intensos meses em que, entre idas e vindas, você me transformou. No entanto, tudo isso está cercado por incógnitas e elas estão refletidas em meus olhos marejados, que revelam um misto de emoção, saudade e inconformismo.

O maior erro foi ter me apegado ao seu jeito doce de agir. A bondade de seu coração conquistou o meu coração e com isso me apeguei a você, como se você fizesse parte de mim; como se os seus problemas fossem os meus próprios problemas; as suas dúvidas as minhas dúvidas; e os seus sonhos os meus sonhos.

Ao planejar a minha felicidade, permiti que a minha vida se resumisse a você e hoje, com a sua ausência, percebo ser preciso me despedir, caso queira voltar a pensar no meu futuro.

Assim sendo, envolvido pela penumbra da solidão de um quarto, excluo o seu contato no aplicativo de mensagens instantâneas e de todas as redes sociais, deletando também as fotografias guardadas no arquivo do celular. Só então encaixoto as cartas, presentes e flores que não foram entregues. Faço o mesmo com a garrafa de Guaspari que permaneceu intocada, esperando pelo dia em que voltaríamos a nos encontrar para dividir uma nova garrafa de vinho.

Por fim, saio de casa com a caixa debaixo do braço, prometendo não mais voltar enquanto não me desprender de tudo o que me leva a você. É assim que pretendo me despedir para não mais deixar minha alma sangrar pelas angústias de um amor não correspondido.

Ou pelo menos vou tentar enfrentar o meu coração, que insiste em não querer que exista um ponto final entre nós dois. Afinal, se não pertenço a você, preciso pertencer a mim mesmo.

E a partir de hoje isso basta!

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